Amauri Soares | A munição que matou Marielle

Amauri Soares: A munição que matou Marielle | INTERSINDICAL
  • Por Amauri Soares*

Evidente que seria mais prudente ficar calado, fingindo não ter nada a dizer. Mas tenho! E não me calo porque a ignomínia precisa ter limites.

Dizer que Marielle foi morta porque tinha envolvimento com bandidos é inverter os fatos em favor dos assassinos de Marielle e Anderson.

Mesmo que ela tivesse envolvimento com bandidos (e nada sequer evidencia esta tese), a obrigação das instituições de segurança e de seus agentes (desembargadora, coronel ou policial) seria evitar que esse tipo de crime acontecesse.

Acontece aos milhares todos os anos, é verdade, e isso não diminui a gravidade da morte de Marielle e Anderson, e sim torna o fato ainda mais grave.

Raciocinar diferente significa estar do outro lado dos princípios legais que dão suporte à existência das instituições de segurança.

Falando mais claro: policial ou qualquer autoridade que banaliza a morte de Marielle como “comum” precisa urgentemente passar por reciclagem, e ser afastado das funções, pois seu raciocínio visa perdoar o imperdoável, e trabalha em oposição aos objetivos legais das instituições públicas.

Sou policial militar da reserva (aposentado) e começo dizendo quem sou para ficar claro que minha opinião tem base na experiência que tive como policial militar.

Ao invés de se dizer “Marielle foi morta porque tinha envolvimento com bandidos“, seria muito mais correto dizer, “Marielle foi morta porque um policial bandido vendeu munição para outros bandidos, sejam eles quem forem“.

Na segunda afirmação, se pode encontrar dados materiais que comprovam a tese.

Mas não foi apenas “um” policial bandido que vendeu munição para outros bandidos.

Quase dois milhões de munições, ou mesmo 10% delas, não podem ser desviadas por apenas “um” policial.

Está comprovado que as munições usadas no assassinato brutal de Marielle e Anderson e foram usadas já em outros diversos crimes (não menos brutais), foram vendidos em 2006 para a Polícia Federal.

Escapou justo ao controle das reservas da Polícia Federal, que junto com o Exército tem a obrigação de controlar a fabricação, a comercialização e a distribuição de todas as armas e munições que existem ou venham a existir no Brasil??!!

Como dizia, “um” policial não pode desviar sozinho tantas munições. Falo porque trabalhei com isso.

Tem um conjunto de procedimentos exigidos para se movimentar ou usar munições, mesmo que para instrução, e sua posterior descarga (devolução das cápsulas vazias ao local de origem).

Agora aparece o atualmente mais badalado ministro (Raul Jungmann) a falar que parte das munições foram desviadas de dentro dos Correios?

Munições transportadas pelos Correios?

Quem autorizou isso é co-responsável por todas as mortes que tais munições causaram!

E é bom esclarecer: a Empresa de Correios de Telégrafos (ECT) não tem nada com isso, pois não existe para garantir segurança de armas e munições, pois esta é uma responsabilidade da Polícia Federal e do Exército.

Se é responsabilidade do Exército e da Polícia Federal é justamente porque requer forte proteção. Como, então, alguém solta por aí, um caminhão de correio, sem nenhuma segurança?

O fato é que já se tem informação mais que suficientes para comprovar que o Estado, justamente pela sua mais valorizada instituição de segurança, a famosa PF, é responsável por ter deixado ir parar em mãos erradas as munições calibre 9 milímetro que mataram Marielle, Anderson e, pelo menos, mais duas dezenas de pessoas.

As instituições que não cumprem sua obrigação legal de controlar armas e artefatos letais que são usados para massacrar e oprimir o povo pobre, agora apontam canhões para a cabeça do povo pobre, e querem convencer que fazem isso pela segurança pública!

Fariam muito pela segurança pública se não deixassem milhões de munições (e milhares de armas) serem desviadas de suas próprias reservas ou controle para as mãos de bandidos, sejam eles quem forem.

Fariam certo se renunciassem a seus cargos e funções e dessem, pela primeira vez no Brasil, o poder ao povo.

São José – SC, 18 de março de 2018.

*Amauri Soares é membro da Executiva Nacional da Intersindical Central da Classe Trabalhadora.


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