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“Aqui não existe essa preocupação em relação ao déficit”, diz pesquisadora residente na Itália

Índio, secretário-geral da Intersindical, entrevista Maria Aparecida Antero, a Cidinha, que é historiadora, bancária licenciada e atualmente mora em Verona, no Nordeste da Itália, região afetada pela pandemia do COVID-19.

Índio: Gostaria que você falasse da sua percepção e como está a situação aí na Itália?

Cidinha – Em relação a percepção, começamos a nos dar conta do problema no carnaval quando eu estava em Veneza. Ali soubemos que o carnaval havia sido cancelado e percebemos que havia algo grave. Os primeiros casos que surgiram fora de dois turistas chineses na Lombardia, no dia 30 janeiro, e aí foi detectado que havia um processo de transmissão comunitária. Foram colocadas apenas 11 cidades em quarentena, após o carnaval saiu um decreto rigorosos que as escolas, creches, museus e eventos públicos estavam vetados. Logo veio a quarentena na região da Lombardia, onde fica Bergamo e Milão. No entanto, foram medidas paliativas não foi de início o país inteiro. No dia 9 de fevereiro saiu novo decreto pedindo para toda Itália ficar em quarentena.

Hoje na Itália os dados são cada dia mais crescentes, está tudo completamente fechado, sinto uma atmosfera de guerra. Eu mesma saio uma vez na semana para ir somente ao mercado, apesar destas medidas as transmissões ainda estão altíssimas. O exército está na rua para conter a população.

Índio: Sabe que aqui no Brasil, 73% da população é a favor isolamento; mas estamos com muitas coisas funcionando o que é um erro, ainda para piorar o Bolsonaro veio dos EUA com sua comitiva contaminada, foi a uma manifestação abraçou as pessoas. Queria que você reforçasse sobre as medidas sociais necessárias, sabemos que a Itália tem menos problemas sociais e mesmos assim está tendo dificuldades.

Cidinha – O presidente Bolsonaro irresponsável, é uma ação quase que criminosa o que ele está fazendo. Deveria ser denunciado externamente, porque o se ele fizesse o que faz aqui na Itália ele já estaria preso. A situação de calamidade aqui é grande, o isolamento é muito importante porque ele impede a disseminação e impede o colapso do sistema público.  Devemos dar a devida atenção a este vírus, não se trata de uma simples gripe, as pessoas contaminadas precisam de muitos cuidados especiais. O Brasil deve usar o que está acontecendo aqui na Itália e tomar para si as tarefas de combate a disseminação do COVID-19. O Presidente Bolsonaro está sendo extremamente irresponsável, temos que cobrar para mudar a atitude deste governo, e devemos denunciar internacionalmente essas atitudes do Presidente do nosso país. Diante da gravidade do que estamos passando não podemos ser omissos, é triste ter que conviver com isso no Brasil.

Índio:  Você conhece bem o SUS como trabalhadora e pesquisadora.  Desde o golpe de 2016 o orçamento da saúde vem caindo. Agora o País tenho que parar e estamos em crise sanitária que por outro lado provoca crises de caráter social, econômica e política. Temos defendido investimentos no Sistema Único de Saúde, o governo deve providenciar equipamentos para os profissionais antecipar o dinheiro das pessoas, para que fiquem em casa, etc.  Na Itália, como este processo de assistência à população está se dando?

Cidinha – Aqui na Itália, desde primeiros momentos, o governo vem tomando medidas em relação à economia. Existe essa preocupação em relação ao PIB, que depende muito do turismo. Mas não existe essa preocupação em relação ao déficit, aqui ninguém fala sobre isso. A questão aqui é como manter a economia e os trabalhadores.  Os sete estados italianos estão investindo na área de saúde e emprego. Saiu um novo decreto que chama “Cura Itália’’, que prevê mecanismos de amortização social e um sistema de seguridade social para as pessoas poderem se manter, apesar de grande ataque às políticas públicas, elas estão se mantendo. Mas o governo está facilitando com a prorrogação de prazos de empresas, aluguéis, estão ajudando inclusive trabalhadores autônomos. Todo esse pacote do decreto gira em torno dos vinte e cinco bilhões de euros. Itália é dividida em 25 regiões. Dez delas têm total autonomia com estatuto diferenciado, as outras quinze tem autonomia também para ajudar os trabalhadores que estão em casa. O que me preocupa no Brasil que nossa rede de proteção social está quase destruída, a diminuição do investimento na saúde não pode existir. E olha que aqui nós não temos tanta precariedade de moradia, essa e uma ideia medíocre de querer ter reajuste fiscal no momento como este.

Índio: Nosso eixo central é o SUS, mas temos de defender que a rede privada seja controlada e que esteja à disposição dos esforços necessários neste momento, para que a população tenha recursos para manter a dignidade. Você estava contando que viu cenas tristes da quantidade de caixões. As pessoas sendo enterradas sem nem os parentes poderem velar seus entes queridos. Fala para gente sobre isso e nos ajude a alertar a população dos riscos e da gravidade dessa situação.

Cidinha – Sim, muito triste esta situação. Nós estamos acompanhando os depoimentos tanto dos médicos quanto dos familiares, que estão sob pressão de ter que decidir quem deve ser atendido. Isso é uma angustia para as pessoas que estão no hospital, que sabem que não irão poder se despedir dos seus parentes, porque sabem que irão morrer.

Índio: Nos dê uma mensagem final, de esperança.

Cidinha – Tem existido uma comoção muito grande aqui, eu também me preocupo com a situação do Brasil. A mensagem dos italianos é de esperança sim, que tudo deve ficar bem. Para isso é preciso se cuidar e respeitar o isolamento. Eu acredito na força do povo brasileiro nos movimentos, vamos manter firmes e juntos.  A Itália foi devastada mas irá se recuperar e vencer, assim como a China tem vencido o COVID-19. Nós vamos passar por esse problema, mas por hora, vamos manter todos em casa.

Assista aqui a entrevista na ítegra:

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