“Vamos ter iniciativas concretas e juntar quem vier, nos pontos que não tem acordo, não estaremos juntos.” afirma Cid Benjamim.

Cid Benjamin é professor e jornalista atual vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Em entrevista concedida ao Secretário Geral da Intersindical, Edson Carneiro Índio, afirma o papel da ABI hoje, comenta sobre a pandemia e o governo de Bolsonaro.

Índio: Estamos diante de uma crise política e econômica que já vinha antes da pandemia. Cid, o Bolsonaro, faz pouco tempo, protagonizou mais um ataque à democracia, participando de um ato que defendia a intervenção militar e o fechamento do Congresso. Gostaria que você comentasse a reação dos setores democráticos da sociedade, atualmente cresce o número de organizações, movimentos e partidos que tem se colocado contra essa saída autoritária que a extrema direita busca impor no nosso País?

CID BENJAMIM: Você fez referência ao ato em Brasília, que só agrava a tragédia que estamos vivendo, a pior crise do pais. Pujol já disse coisa semelhante, porque Bolsonaro – transcendendo a posição de direita ou esquerda – ele atropela qualquer recomendação das autoridades sanitárias, e corremos risco de no final dessa pandemia de ter centenas de milhares de morte. Enquanto ele fala de gripezinha e vai para a rua e abraçar as pessoas é muito irresponsável. O que ele fez dá margem ao pedido de afastamento dele, cometeu crime, ele participou de um ato em porta de um quartel pregando abertamente a instalação de uma ditadura aberta, o tal do novo AI-5. Que é bom dizer que foi um golpe dentro do golpe do estado (1964), já havia ditadura e o AI-5 radicalizou todos os instrumentos de censura à imprensa, aposentou funcionários com estabilidade e também a tortura contra pessoas teve sinal verde. Não havia direito ao habeas corpus diante de uma prisão ilegal, a Justiça tinha que julgar rapidamente, então os juízes determinavam a prisão e impediam uma tortura; com o AI-5, como não havia habeas corpus para presos políticos, deixavam a mercê dos torturadores. Eu só fui apresentado depois de 20 dias de prisão, passei no DOI CODE, eu tinha marcas de tortura e quando fui levado ao juiz e eu fiz uma denúncia diante das marcas da tortura, fios amarrados em meus órgãos, o promotor justificava que minhas marcas eram da briga de quando fui preso, o meu advogado pediu corpo delito. Até então eles não aceitaram meu pedido, conseguimos apenas o contato com a família e eu perdi novamente e fiquei incomunicável.

Isso, sair por aí só já é um crime do presidente que é algo claramente ilegal, quebrando a democracia, sem contar sobre a saúde pública, o aumento de mortes, não só diretamente, mas com a defesa de posição contrária às orientações. Sociedade está demorando a reagir, só espero que isso não acontece depois de milhares de mortes.

Índio: Hoje você é Vice-Presidente da ABI, que estava calada, a vitória da nova direção deu fôlego para a entidade atuar na luta pela democracia. A grande mídia tem buscado se diferenciar do Bolsonaro quando trata da questão democrática, mas nossa avaliação é que na política econômica, as reformas de Paulo Guedes e Bolsonaro, a Globo e grande mídia apoia essa agenda. Agora nesse momento de pandemia a Rede Globo tem se pautado para a preservação da quarentena. Na sua avalição, qual tem sido o papel da mídia nesse momento e quais são os desafios dos setores democráticos?

CID BENJAMIM: Olha Índio nossa posição é coisa de bom senso, eu e Paulo Gerônimo tivemos reuniões com a direção do jornalismo da TV Globo, para discutir a questão do papel do Bolsonaro. Não diria que é uma verdade absoluta, mas a muitos pontos de identidade, efetivamente ela tem feito um jornalismo razoável, porque tem mostrado o papel do Bolsonaro na pandemia. Como falamos de coisas como Rodrigo Maia, que não temos identidade, porque foi principal articulador para aprovação das reformas.

A ABI é uma instituição de 112 anos de idade, marcante na vida brasileira e tem que se fazer respeitar, estava sumida por conta do pessoal “apelegado” que tinha tomado a direção da entidade. ABI é uma livre associação e com isso tivemos muitas dificuldades, ABI já estava com CNPJ cancelado, então tivemos dificuldades em pagar salários, e estamos correndo atrás, mas agora recuperou protagonismo que nos coloca em uma posição difícil pela quantidade de notas que temos soltado porque todos dias Bolsonaro solta uma nova. Para você ter uma ideia, o dia que meu time foi campeão da Libertadores, me ligou um jornalista me falando que uma professora havia se suicidado, ele estava cobrando uma posição da ABI, isso aconteceu no momento de confraternizava da minha casa sobre o jogo do qual eu organizo grupo torcedores, e naquele momento fiquei preocupado, mas realmente não havia muito a ser feito. De qualquer forma quero dizer tudo isso mostra a imagem da ABI, uma certa preocupação, cobrança das pessoas, mas isso é sinal que parece que estamos renascendo.

A gente pensa em abrir um processo de pedido de impeachment uma campanha de massa pela internet, mas não que seja mais um pedido, e sim algo levado a sério, porque muitos já foram para gaveta. É uma situação difícil, a pandemia atrapalha a mobilização e Bolsonaro recriou integralismo, um movimento de massa fascista, coisa que a ditadura não fez isso. Ele criou essa coisa, milhares de caras de extrema direita fascista, mesmo nos anos 30 não tinha expressão tão forte, a gente tem um quadro que se assemelha a Bolívia que sofreu golpe de estado que exército praticamente não teve participação o golpe. É um quadro difícil, precisamos seguir em frente para defender democracia, porque para reestabelecer depois e muito complicado.

Índio: Queria sua opinião, o Bolsonaro não tem interesse em conversar com a maioria da população e levar seu projeto, ele fala para base extrema direita fascista. Como você viveu a ditadura militar, pagou caro pela resistência, você e autor de alguns livros, dois deles falam muito desse contexto que estamos vivendo agora, agora tem muitos setores que minimizam essas declarações, esse comportamento dele realiza uma aproximação progressiva e quando nos dermos conta podemos estar dentro de uma ditadura.

CID BENJAMIM: Bom eu não discuto com terraplanista; Bolsonaro não é democrata, o projeto dele e implantar um regime ditatorial, ele não faz segredo nisso, e ele foi eleito baseado nisso. Eu participei da luta armada, nos fazíamos assalto a banco sabendo que era ilegal, mas fazíamos isso para tirar dinheiro dos banqueiros para financiar a luta armada, foi estratégia errada, não tínhamos força de derrubar ditatura por isso cabe autocrítica, mas era legítimo. A questão da corrupção, foi assim, PT entrou nessa dança achando que teria o mesmo tratamento que seus aliados na imprensa, mas essa foi mais dura, mais rígida com o PT. Hoje se você fizer uma pesquisa, talvez apareça o PT como mais corrupto, o que é uma injustiça. Na verdade, PT deu mole e essa questão permitiu um sentimento na política que desaguou no voto do Bolsonaro. Até hoje, o PT não trata isso, Lula, outro dia, disse não precisar fazer autocrítica, então não é possível que PT não tenha errado em nada? Eu acho que tem que acertar contas com passado, eu acho que foi um erro ter passado pela luta armada, não me arrependo, mas não impede de dizer que erramos politicamente, tem que ser dito, agora PT não faz balanço correto e teve responsabilidade no desgaste da esquerda e crescimento da direita. Nesse momento sei que Rodrigo Maia, por exemplo, pode ser um aliado em certos pontos, e nesses pontos vamos trabalhar, outros vamos divergir, e pode ser aliado contra a ofensiva da direita, assim como Rede Globo diante de uma ditadura ela perde sua força, então penso que podemos nos aliar. Não podemos cometer os mesmos erros do passado, como de certa maneira aconteceu na Alemanha em 1933, Hitler não tinha a maioria absoluta, mas foi escolhido primeiro-ministro e documentos do Partido Comunista Alemão mostra que eles não se preocuparam com isso, mais sim com o crescimento do comunismo entre os eleitores no mesmo período, um erro de conseguir enxergar o que estava acontecendo. Enfim, eu como filiado ao PSOL, mas um documento como o que foi escrito no momento que Bolsonaro foi eleito, pensando na nossa representação no Congresso, o crescimento de mulheres; na verdade, para mim foi um documento escandaloso, um documento voltado para dentro. Bom, temos que aliar com quem tiver disposto a lutar ao nosso lado.

Índio: Acho boa sua defesa de uma frente ampla, a Intersindical também defende, ainda que temos batido bastante de frente com Rodrigo Maia, pela questão da carteira verde e amarela, mas diante da importância da liberdade democrática. Sabemos que não existe negociação direta, que não existe negociação de empregador com patrão e sim existe imposição, neste ponto não temos acordo com Maia, mas isso não significa que temos de fecha os olhos para o perigo que representa a ideia de fechar o Congresso Nacional.

CID BENJAMIM: Olha, mesmo isso é complicado porque sempre defendemos que o negociado não pode atropelar o legislado, eu mesmo em momento fui editor do Jornal do Brasil e não assinaram minha carteira , no contrato abria mão de uma série de direitos, então o acordado ali prevaleceu sobre a legislado, eu cumpria jornada de trabalho etc. e quando fui demitido fui a Justiça do Trabalho e ela reconheceu que um acordo não poderia ser atropelar a lei e eu ganhei tudo e agora estão acabando o direito trabalhista, e o Rodrigo Maia é a favor acabar com tudo, então nessa eu vou criticá-lo. Eu não gosto de falar em frentes, prefiro falar em iniciativas conjuntas a partir de determinados pontos, se juntar os setores progressista para discutir, não vamos conseguir porque Ciro não assina, Lula não aceita, então vamos ter iniciativas concretas e juntar quem vier, nos pontos que não tem acordo não estaremos juntos. Este Supremo (STF) é muito ruim, agora é o que temos, bem ou mal, o Supremo pode ser um aliado e está sendo contra várias tentativas autoritárias do Bolsonaro. Muitas vezes um discurso mais radical é uma cegueira, fazer um acordo com fulano não significa que você vai pegar vírus direitista dele, a história está cheia de acordos, como jornalismo da Globo, não podemos negar que estão fazendo um bom jornalismo, enquanto Bolsonaro chama um vírus desse de gripezinha.

Índio: Nesse momento está claro que o SUS é uma conquista que temos para valorizar e, por outro lado, a necessidade do estado para interferir na economia brasileira e garantir empregos e renda para o povo. No entanto, estamos vivendo uma situação dramática, então se o governo negar essa política pública, por outro lado, as Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular estão vendo o papel da solidariedade humana em um lugar especial, diferente desse Neoliberalismo, os movimentos estão tendo muita iniciativa de solidariedade, também estamos defendendo a taxação de grandes fortunas como mecanismo de distribuição de renda. Diante de uma crise como essa, qual papel da esquerda? Para impedir retrocesso social, democrático e avançar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária?

CID BENJAMIM: Sobre a questão da solidariedade, conversando com Guilherme Boulos, eu acho que é um sentimento muito bom e insistido com ele. Porém, além dessas ajudas séria, precisamos cobrar a obrigação do governo. O que algo complicado até agora, por exemplo, tem gente que não conseguiu sacar esse auxílio, o estado tem que colocar mecanismos mais fáceis, não pode exigir que as pessoas tenham aplicativo para receber a ajuda emergencial. Então é bom fazer esses atos de solidariedade, mas além disso fazer uma pressão sobre o estado para que ajude as pessoas sem burocracia. Este Ministro da Saúde diz que vai comprar respirador, agora questiona o que vai fazer depois da pandemia, a visão do cara é o cifrão, não são as vidas que virão ser salvas. É preciso diminuir o espaço para os caras que querem fazer os cortes em investimento social depois dessa pandemia, porque se não fosse o SUS estaríamos em situação muito complicada. Agora você vê o pais mais rico do mundo não ter como oferecer saúde pública, as pessoas morrendo dessa forma, e aí você vê Cuba que nesse momento dá um exemplo de solidariedade, ajudando a todos; em Cuba, no socialismo, não é preciso escolher quem será atendido, como acontece hoje me boa parte do mundo. Nesse sentido os cubanos estão dando uma aula, acho que o mundo já teria várias dívidas com Cuba e depois dessa pandemia o mundo deve aos cubanos mais uma vez.

ASSISTA AQUI A ENTREVISTA COMPLETA:

[COVID-19] Cid Benjamin: Mídia, Bolsonaro e as esquerdas no contexto da pandemia
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