Odilon Guedes | Sem luta política não há saída para o Brasil

INTERSINDICAL – Central da Classe Trabalhadora

“Sem luta política não há saída para o Brasil”. A afirmação é do economista e professor universitário Odilon Guedes, mestre em Economia pela PUC, diretor do Sindicato dos Economistas do Estado de São Paulo e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Nível Universitário.

Em entrevista exclusiva ao site da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, o economista e professor universitário Odilon Guedes desmistifica questões sobre o orçamento público e o ajuste fiscal. E mostra, matematicamente, quanto o País está perdendo com medidas que, na prática, só atendem aos interesses do mercado financeiro. Confira a entrevista na íntegra:

Intersindical – Qual a sua avaliação sobre o ajuste fiscal promovido pelo governo?

Odilon GuedesO ajuste fiscal proposto pelo governo é um conjunto de equívocos, erros grosseiros que estão penalizando o povo brasileiro e que comprometem o presente e o futuro do País. O governo se dobrou aos interesses do mercado. Primeiro, fez cortes no seguro desemprego, pensões e seguro saúde. Pretendia economizar R$ 17 bilhões para os avanços no chamado ajuste fiscal e ter um superávit primário (o que o governo arrecada menos o que ele gasta, sem computar os juros nos gastos). Ao mesmo tempo aumentou a taxa de juros, a Selic, que está em 13,75% ao ano. Com cada aumento de 1 ponto percentual na taxa Selic o governo gasta cerca de R$ 30 bilhões. O governo economizou R$ 17 bilhões, cortou R$ 70 bilhões do orçamento dele para economizar e pagar os juros da dívida e prevê que vai gastar R$ 400 bilhões este ano com os juros da dívida pública! Que ajuste é esse? Que conta é essa?

Intersindical – E a inflação só aumenta…

Odilon GuedesÉ preciso medir o aumento da Selic com o tamanho da dívida pública (dívida do governo com o mercado financeiro, bancos, fundos de pensão) que é de R$ 3,3 trilhões. O governo corta interesses dos trabalhadores, aumenta a taxa de juros que vai favorecer os bancos e aplicadores do mercado financeiro.

A inflação está baseada no aumento de poucos alimentos com preços administrados, como gasolina, energia elétrica e a área de serviços, cabeleireiro, dentista, médico. Grande parte da inflação é por causa disso. Não adianta aumentar a taxa de juros. E o governo está aumentando progressivamente a taxa de juros alegando que é para cortar a inflação e a inflação não cai. Está em 8,89%. É a mais alta desde 2003 (9,30%).

Intersindical – Já é o sexto aumento consecutivo na Selic, é a maior taxa de juros desde 2008. Pode explicar o efeito em cascata desse aumento?

Odilon Guedes – Com essa taxa de juros elevadíssima o País entrou num processo de recessão. A taxa real de juros no Brasil é a mais alta do mundo. Esse ano o PIB vai ficar negativo. Os empresários, em vez de aplicarem em negócios e indústrias, que geram emprego, preferem aplicar no mercado financeiro. O crédito encarece. Outras taxas também aumentam. O cheque especial em alguns bancos chega a 300% ao ano. As pessoas pegam menos dinheiro emprestado e ao mesmo tempo a economia paralisa. Há aumento do desemprego, a inadimplência de empréstimos nos bancos, que restringem ainda mais o crédito e elevam os juros. As pessoas deixam de consumir, as empresas deixam de crescer, cai a arrecadação do governo. O governo arrecada menos e tem menos para investir.

Nos Estados Unidos a taxa de juros é de 0,25% ao ano, por isso quem aplica no mercado financeiro norte-americano perde dinheiro. Já quem aplica no Brasil, ganha e muito. Não compensa investir no setor produtivo e gerar empregos.

Intersindical – Há uma situação gravíssima de desemprego, o que fazer?

Odilon Guedes – Além da crise econômica tem a crise social. Imagina uma família sem dinheiro para pagar suas contas. Aumenta a violência familiar e social. Agora tem esse quebra-galho para garantir os empregos, com a diminuição da jornada do trabalhador e o governo complementando parte do salário. O que precisamos é ter uma política para o País retomar o crescimento econômico para gerar emprego e resolver os problemas de saneamento básico, transporte, educação e saúde da população. Tem que ter a reforma tributária e uma política para o País retomar o crescimento econômico, gerar emprego.

Intersindical – Como promover uma mudança desse tamanho?

Odilon Guedes – Sindicatos, associações, conselhos de transporte, de educação e saúde, entre outros, precisam aprender e acompanhar o orçamento público nas mais diversas áreas. Desta forma, a sociedade civil pode conferir se houve superfaturamento ou não, se a destinação de recursos é apropriada… Isso precisa ser disseminado no Brasil.

Uma mudança tributária e na condução da política econômica só vai acontecer se a sociedade investigar e acompanhar o gasto público. Qualquer receita pública está no orçamento e a sociedade precisa entender e acompanhar o quê, com quê e como o governo gasta. É só por meio da luta política, senão não tem saída para o Brasil.

Intersindical – O que falta para a sociedade civil? Indignação? Organização?

Odilon Guedes – A população tem que saber o que acontece. Se o indivíduo não tem informação, nem indignado pode ficar. Há um esquema de dominação por desinformação. O governo e a mídia colocam o aumento dos juros e o ajuste fiscal como a única forma de resolver a crise. Não podemos aceitar isso.

Veja que 60 mil homicídios ao ano não é normal. O sujeito passar 2 horas no trânsito nas grandes cidades para ir trabalhar não é normal. A péssima educação básica e o descaso na saúde não são normais. A população tem que ter consciência, lutar pelos seus direitos e pela justiça tributária.

Intersindical – O que precisa ser feito?

Odilon Guedes – É necessária uma reforma tributária no País.  Voltar ao crescimento econômico para deixar de pagar os R$ 400 bilhões de juros e poder investir, fazer ferrovias, metrô nos grandes centros urbanos, saneamento básico… Assim as contratadas empregam, empresas produzem mais, o governo arrecada mais.

A proposta de reforma tributária que defendo, do Sindicato dos Economistas, é diminuir os tributos indiretos (ICMS, IPI, Cofins), assim as empresas vão ter menos custos, vão baixar os preços e isso ajuda a combater a inflação. Por outro lado, para compensar a perda da arrecadação aumenta-se a carga direta de impostos sobre a riqueza, posses, herança, e renda. É o que acontece em países como os Estados Unidos, Alemanha. Se fizerem uma reforma tributária com essa característica vamos resolver o problema da injustiça tributária. Já que a carga indireta de impostos chega a 50%.

Leia Também: Reforma Tributária: pela taxação das grandes fortunas, imposto sobre herança e revisão da tabela do imposto de renda

Intersindical – Pode dar um exemplo fácil de injustiça tributária para quem não entende de economia?

Odilon Guedes – Um exemplo desta injustiça tributária: um trabalhador que ganha R$ 1 mil por mês vai comprar uma televisão de R$ 2 mil. São 40% os tributos indiretos sobre a TV, ou seja, R$ 800 mil só de imposto. O trabalhador tem que desembolsar 80% do salário dele para ter seu aparelho televisor enquanto quem ganha R$ 10 mil vai pagar 8% sobre o salário dele em impostos com a TV. É justo? E isso acontece com tudo.

Por isso reduzir a carga indireta aumenta o consumo e aumentar a carga direta de quem tem mais não é absurdo. As pessoas falam, mas pagamos muito e não temos educação de qualidade, saúde… Por isso defendo que paralelamente a estas reformas precisamos promover uma ampla campanha de massa. A sociedade civil precisa entrar numa política de combate à corrupção para ele fiscalizar a aplicação e destinação do dinheiro público.

 Uma mudança desse tipo não acontece de uma hora para outra, tem que ser progressiva e depende da sociedade, dos sindicatos, de associações e centrais sindicais como a Intersindical. O médico de um hospital tem que participar de um conselho e acompanhar o orçamento do hospital ou posto de saúde onde trabalha…só assim se combate a corrupção. Um professor tem que conhecer os custos e acompanhar para onde são destinados os recursos na escola em que trabalha. Só vamos mudar pela conscientização e pela luta política da sociedade, senão não tem saída para o Brasil.

 

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