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Nota da CGY sobre o Massacre de Caarapó (MS) e o assassinato do Guarani e Kaiowá Clodiodi de Souza

Por toda yvyrupa, o povo Guarani amanheceu de luto. Ontem, uma terça-feira, dia 14/06/2016, nosso parente Clodieldo de Souza Guarani Kaiowá, de apenas 23 anos, foi assassinado. Clodieldo era agente de saúde do tekoha Tey’i Juçu, aldeia que fica na Terra Indígena Dourados-Amambai Peguá, município de Caarapó no Mato Grosso do Sul. Em um ataque promovido por fazendeiros locais para expulsar nossos parentes de suas terras, Clodieldo levou dois tiros e morreu ainda no local.

Pelo menos outras dez pessoas foram gravemente feridas, entre elas uma criança de 12 anos, atingida com um tiro no abdômen. Foi um massacre! Mais um que não será contado nos livros de história, pois nenhum branco morreu. Os autores dos crimes são mais de 70 fazendeiros e seus pistoleiros que atacaram a comunidade pelo simples fato de lutar pelo direito às nossas terras tradicionais, lugares pelos quais já vivíamos e circulávamos muito antes da chegada destes que se dizem donos da terra.

É desesperador só poder rezar e chorar de longe vendo a situação de nossos parentes Kaiowá. Sentimos na alma a dor de mais uma perda. Enquanto isso, articulado com essas atrocidades, o governo age acabando com os direitos conquistados dos povos indígenas. Os processos de demarcação que poderiam garantir a segurança dos povos indígenas, sequer serão considerados nos próximos 90 dias pelo atual Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. No último dia 10/06, o ministro soltou uma portaria paralisando o funcionamento de todas as áreas do ministério nos próximos três meses, especialmente Direitos Humanos e órgãos colegiados, excetuando apenas as áreas policiais.

É importante notar o aumento da violência que nossas comunidades têm sofrido nesse momento em que, cada vez mais, fazendeiros se sentem no direito de matar e saindo impunes. Isso faz parte da situação política que vivemos no Brasil, em que aqueles que acham que são donos da terra e que só se interessam pelo dinheiro tem se sentido cada vez mais poderosos.

Nossos parentes Guarani do oeste do Paraná, por exemplo, também têm sido cada vez mais ameaçados pelos fazendeiros da região. Na última semana, a comunidade do tekoha Mirim, no município de Guaíra, foi expulso de parte do território por uma milícia de fazendeiros. Sem qualquer ordem judicial e sem nenhum pudor, esses homens, que se acham melhor do que todos os outros, organizaram o despejo da comunidade através da página de Facebook da Organização Nacional de Garantia ao Direito de Propriedade (Ongdip). A organização convocou e os fazendeiros compareceram. Queimaram as casas das famílias que estavam lá, espantaram seus animais e expulsaram nossos parentes aos gritos e ameaças de morte.

São esses mesmos fazendeiros, empreiteiros e banqueiros que hoje fazem nossas leis. São eles que colocam ou tiram o presidente do país quando querem. Assim como tentam acabar com os direitos dos pobres, dos trabalhadores e dos sem teto, também fazem de tudo para acabar com aquilo que conquistamos com muita luta na constituição de 1988.

Fazem isso tentando criar novas leis, como as que passam a competência do Executivo em reconhecer Terras Indígenas para o Congresso Nacional dominado por ruralistas.

Tentam acabar com o licenciamento ambiental, e pouco se importam que venham novos desastres para o meio ambiente, como o rompimento da barragem da Samarco no município de Mariana (MG).

Querem permitir a mineração em nossas terras, mesmo sabendo dos riscos que isso traz à saúde dos que vivem em contato com a natureza, como recentemente foi descoberto nos parentes da TI Yanomami os altos níveis de mercúrio que podem causar diversas doenças e debilidades.

Buscam vender nossos parques para os madeireiros e para a exploração do turismo, como no projeto recentemente aprovado pela Assembleia Legislativa de São Paulo que permite a concessão de 25 parques estaduais para a exploração da iniciativa privada. Um dos parques seria o Parque do Jaraguá, onde estão três de nossas aldeias. Obviamente o projeto aprovado não foi sequer levado para consulta em nossas comunidades.

Enquanto isso, como atores de teatro encenam na CPI da Funai e do Incra, tentando criminalizar nossas lideranças e parceiros com o claro objetivo de paralisar e reverter nossas demarcações, assim como o reconhecimento das terras quilombolas.

Os que tentam denunciar isso, como nossos parentes que ocuparam a audiência pública da CPI da Funai em Porto Alegre, são gravemente ameaçados. A imprensa, também controlada por esses mesmos senhores e seus amigos, hora finge que nada está acontecendo, hora participa da farsa promovida por um legislativo dominado por interesses escusos.

Querem acabar com os povos indígenas, com nossa forma de vida, seja através do papel, seja através do chumbo. Não nos calaremos. Após mais de 500 anos seguimos existindo e resistindo, lutando pelo direito a nossa própria forma de vida em nosso território sagrado. Não abriremos mão desse futuro para nossas crianças. Aos que se dizem donos da terra, nós respondemos: NÃO RECUAREMOS NEM UM PASSO!

Aguyjevete pra quem luta!

Leia mais:
→ Confronto entre indígenas e fazendeiros deixa um morto e 6 feridos em Caarapó

Fonte: Comissão Guarani Yvyrupa

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