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“Não podem querer que as pessoas sejam colocadas frente à uma Escolha de Sofia, entre escolher morrer de vírus ou morrer de fome”, explica Arthur Araújo

Arthur Araújo, economista, engenheiro e consultor é entrevista pelo Secretário Geral da Intersindical, Edson Carneiro Índio, e apresenta um leitura sobre a situação atual do país, em especial indicando possibilidades de ações do campo de oposição no sentido de retomar o protagonismo frente ao bolsonarismo.

Índio: Arthur, você tem sido uma voz muito importante e constante na defesa do papel do estado como coordenador e planejador do crescimento e desenvolvimento econômico em resposta às diversas mazelas que o país já enfrenta de um tempo e com a pandemia, nos parece que, essa necessidade se apresenta de uma maneira mais urgente. Gostaria que que você comentasse esse ponto, como é que você entende essa luta pelo papel do estado no enfrentamento às crises, e como tem sido no Brasil este debate, uma vez que a gente vive essa sucessão de crises.

Arthur Araújo: Quando você me propôs a falar sobre o papel do estado, eu fiquei em dúvida sobre duas abordagens possíveis. Uma sobre o imediato, eu a resolvo em pouquíssimas palavras: gastar sem limites. Hoje é esse o papel dos estados nacionais em todos os países do mundo, até porque quase todos já estão acometidos pela pandemia, como a pandemia, ela causou simultaneamente, ou agravou uma crise econômica, mundo já vinha se arrastando de lado na economia, no ano de 2020 já se previa um crescimento global fraco, crescimento de desemprego, redução de renda per capita, e a pandemia aguçou violentamente isso porque ela afetou simultaneamente a demanda e a oferta. Porque as pessoas tiveram de reduzir o consumo e a produção foi afetada porque as pessoas não podem ir trabalhar, e a produção acaba por não ter demanda a responder. Isso colocou um imperativo para os estados nacionais: só é possível manter o sistema de saúde, ter medidas de isolamento social se o estado gastar dinheiro e gastar muito dinheiro. Para sustentar o sistema de saúde, para sustentar pesquisa de fármacos, para sustentar a busca de vacinas, para sustentar os profissionais são necessários para isso se o estado gastar. Por outro lado você só consegue fazer isolamento social se as pessoas tiverem a garantia de renda. Não pode querer que as pessoas sejam colocadas frente à uma “Escolha de Sofia”, entre escolher morrer de vírus ou morrer de fome. Geralmente seria esta opção dada às pessoas se elas não fossem socorridas ao irem para o isolamento social.

Este é um exemplo que a gente está vendo no mundo inteiro, até mesmo na Inglaterra – país religiosamente liberal, tem como primeiro-ministro um Trump de segunda linha de cabelos esquisitos, que era o rei da defesa do estado mínimo, se viu obrigada a nacionalizar as folhas de pagamento.O governo inglês paga os salários de todos os empregados do país, são bilhões de libras. Foi montado um sistema de envio de dinheiro para as pessoas, não apenas os empregados, mas os trabalhadores por conta própria, temporários, etc. Uso o exemplo do Reino Unido, propositalmente, porque mostra que todo dogma liberal, que defendia que o estado deveria ser extinto, que atrapalha a sociedade, tudo isso foi posto terra abaixo, foi enterrado, acabou. Não uso o exemplo da China, que foi o país com maior capacidade de controle estatal sobre a pandemia. Uso o Reino Unido, porque ele dialoga com as opções dos liberais, e portanto, mostra que até mesmo lá o estado preciso assumir a coordenação do combate à pandemia.

A verdade é que só conseguem reagir à pandemia e a crise econômica aqueles países que têm o estado no posto de comando, e esse é o nosso grande problema aqui porque nós estamos crescendo continuamente a curva, a crise econômica tem se aprofundado, é o governo tem na agenda ataques contra a população.

Todos nós sabemos dos efeitos das medidas medidas provisórias, achatamento salarial, precarização, que já era ruim. Agora está sendo de outra postura do patronato, estão jogando pesado é na demissão. Não iremos ter nem as regras das medidas provisórias, nós vamos para um cenário de demissão em massa. A Usiminas por exemplo, se recusa a negociar com o sindicato, se recusa a discutir qualquer coisa antes que o sindicato aceite a demissão de 60% do quadro de funcionários. Movimento sindical com dificuldades depois da reforma trabalhista, não consegue reagir.

Resumo e conclusão, mais do que nunca ou estado brasileiro intervém e gasta para valer gasta do jeito certo ou não veremos cada vez mais gente doente, e teremos uma economia cada vez mais conectada pelo desemprego e todos os efeitos na cadeia econômica.

Índio: Qual seria o papel dos setores popular, do movimento social e das esquerdas frente a essa sucessão de crise?

Arthur Araújo: Se Deus era brasileiro, no momento, ele não está sendo. Porque o mundo está assolado por duas crises em curso, a crise econômica e a pandemia. Só que isso poderia criar uma crise sistêmica, de consumo e produção, uma terceira crise mundial. Esta terceira crise está sendo impedida pelas ações do estado. Os estados nacionais, no mundo todo, estão gastando trilhões de dólares, na salvação de bancos, financeiras, etc para evitar que eles colapsem por completo. Estão evitando a crise aqueles papéis mágicos, que eles negociam o dia inteiro, só que isso poderia criar uma crise sistêmica. Mas imagina você, já temos uma crise sanitária, tem uma crise econômica, se você ainda por cima tem uma crise financeira, que significaria desaparecer o dinheiro da conta corrente das pessoas, é isso que ela é verdadeiramente, teria um efeito avassalador. Se discute hoje se essa escala de recursos para salvar os bancos está na faixa de 3 a 5 trilhões de reais, tudo para o sistema financeiro, para banco. Esse dinheiro é a prova que também existe dinheiro para qualquer outra coisa. Coloca claro que é um erro igualar a economia estatal com a economia doméstica, que você só gasta o que você ganha. Este edifício está desmoronando na prática, não precisa de teoria. No Brasil nós adicionamos a essas duas crises, a crise política institucional.

Que é este fenômeno do protofascismo, neofascismo, seja lá o nome que se queira dar para o bolsonarismo, é motivado por gente que pretendem ganhar posições pela instauração do caos, não é erro, não é incompetência, é projeto, o projeto deles é o caos. Nós temos um governo federal que tenta como criar o caos, para eles aparecem como alternativa, vão vender o peixe deles, “olha se vocês derem uma ditadura para a gente resolvemos isso tudo”, “se parar de ter política, de ter tribunal, se deixarem a gente mandar sozinho a gente resolve tudo”. Para eles interessa o caos, ao contrário de todos os cidadãos brasileiros. É um governo que se desgasta aceleradamente, perde muito apoio, principalmente mas em direção ao cume da pirâmide social brasileira, mas estranhamente consegue aumentar sua popularidade na base da sociedade, com as pessoas dizendo que os R$ 600,00 é um presente do capitão. É uma política pública nacional que nós vamos ter que trabalhar para desmistificar essa ideia, que tem tido alguma penetração. Mas no geral, é um governo que tá com cada vez mais dificuldade em relação ao Congresso, tanto que teve que comprar o Centrão, onde para comprar, ter de entregar a direção de Itaipu para políticos tradicionais, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para o chefe de gabinete do PL, do Valdemar Costa Neto. Há uma coisa vaga se tem ou não apoio militar. Mas uma coisa é certa, está em conflito governadores e prefeitos, conflito aberto.

Há, no entanto, um elemento faltante na conjuntura brasileira hoje, que é o ponto que você levantou as forças populares. No ambiente da macropolítica, o governo tem enfrentado desafios crescentes. Ao ponto de setores do tucanos de alta plumagem encaminharem manifesto exigindo a saída de Bolsonaro. Na base da sociedade, a impressão que dá é que está dividida, uma parte que apoia Bolsonaro, inclusive mostram as pesquisas que cresceu um pouco, por conta da boa propaganda que ele fez em todo dos R$ 600,00 e da má comunicação do nosso lado. Eu diria que a maioria é contra o governo ou está querendo ver para onde é que vai. O desafio é criar na sociedade a necessidade de uma troca de governo. E isso passa por quatro desafios fundamentais. O primeiro e a defesa do isolamento social, devemos ser os defensores de primeira ordem da vida. Segundo ponto é a solidariedade, eu sinto falta da ação mais contundente dos sindicatos, dos partidos políticos e das frentes em ações concretas de solidariedade, o que temos hoje é a sociedade e parte do empresariado que faz de conta que é solidário. Terceiro ponto, realizar ações concretas de mitigação da crise, temos de combater o desemprego, temos de garantir o auxílio emergencial. Temos de criar um movimento de opinião que combata a precarização, as demissões em massa, temos de denunciar as MP que vem no sentido de ampliar o trabalho precário. Quarto ponto, é construir a mais ampla aliança com todos aqueles que são contra Bolsonaro, que irá envolver diferentes opiniões, classes e interesses distintos, mas que neste momento se somam contra o Bolsonaro. Depois iremos brigar mais adiante.

Índio: Como dialogar com os setores econômicos que precisam do mercado interno na construção de uma frente ampla? Qual seria uma fórmula possível para isso?

Arthur Araújo: Primeiro, não tenho a menor pretensão em ter uma fórmula pronta para isso. Mas acho que que o caminho seria parar de ter como prioridade falar para nós mesmos. Passamos 90% do tempo falando entre nós, ou, no máximo, reagindo a alguma provocação da fábrica de delírios que é o bolsonarismo, que faz isso de propósito, para fazermos gastarmos tempo com eles, e nos distanciarmos do que realmente importa, para que a gente fique correndo atrás do nosso próprio rabo. Este então é o primeiro desafio, preocuparmos em falar para além de nós, o centro do nosso diálogo deve ser para fora da bolha, fazer uma comunicação verdadeiramente de massas. Estamos em uma situação que temos brechas para isso, meios de comunicação comerciais corporativos estão em oposição a Bolsonaro, temos de aproveitar isso, e fortalecermos nossa linha de comunicação direta com o povo. Existe inclusive espaço na mídia clássica, para quem tiver em oposição ao Bolsonaro, precisamos cavar estes espaços. Por outro lado, temos nosso meio também, nós temos que concentrar nossa linha de comunicação unitária não pode dispensar pautas, por isso falei dos quatro pontos anteriormente, temos de agir, cada um no seu meio, mas com articulação para fazer unitariamente a ação de comunicação.Falar do isolamento social, da solidariedade, das ações de mitigação da crise e da frente ampla contra Bolsonaro de maneira uníssona, se fizermos isso resolvemos boa parte da nossa capacidade de falar para a multidão. O isolamento social nos permitiu perceber que é possível fazer um movimento de opinião sem necessariamente termos de ir ás ruas fisicamente, é possível fazer pelas redes. A gente tem de lembrar que o bolsonarismo não foi um movimento que se criou unicamente nas ruas, teve sim a herança das suas, mais se criou nas igrejas e nas redes sociais.

Sabemos que o local de trabalho é o local da conversa, será diferente no pós-pandemia. O trabalhador informal não tem local de trabalho clássico, os trabalhadores formais tem seus locais de trabalho com cada vez menos gente. Temos o desafio de encontrar as pessoas em seus locais de moradia, a gente não sabe mais onde as pessoas trabalham, mas a gente consegue saber onde elas moram. Salvo a população realmente situação de rua, que não tem teto, os trabalhadores moram em algum lugar e é por aí que está a chave da organização. Então o sindicalismo terá de se reinventar, terá de dialogar com as experiências dos movimentos de bairros na década de 70, que é você buscar o contato com a população, sem abandonar o local de trabalho, mas como ele tem cada vez de Podemenor importância do desenho, nós vamos ter que pensar em como nos comunicarmos os locais de moradia. Até mesmo na pandemia isso é possível, mesmo na situação de isolamento social, as pessoas tem conversa com seus vizinhos, conversa com família, conversa no bairro. Acho que essa capilaridade tem que ser buscada, desafio de comunicação Comunitária.

Sintetizando, nós temos que parar de falar de muitas coisas, e começarmos a falar poucas coisas mas todos juntos, e falar para fora da bolha, para milhões e milhões de brasileiros. Devemos nos concentrarmos em buscar fazer com que as nossas vozes sejam atrativas, sejam simpáticas, para elas uma audiência que possa competindo com a comunicação da direita. Creio que o desafio seja este.

Quanto a questão dos setores médios, dos pequenos e médios empresários, nós temos uma ótima oportunidade para conversar com eles. É preciso dialogar concretamente, para estes setores é muito melhor cobrar do governo ajuda econômica para garantir a permanência dos seus funcionários do que embarcar na onda das demissões e depois ter de recontratar todo mundo, capacitar, etc. , ou mesmo correr o risco de não ter mais clientes, se a situação caminhar para 20, 25% de desempregados no país. A conversa deve ser de gente grande, deve dialogar com o problema objetivo destes setores econômicos, que também são prejudicados com a crise. O que temos de falar para eles é que defendemos medidas econômicas para que eles não quebrem, para que o governo socorra financeiramente estas empresa, e com isso eles saíam intactos da crise, e tem condições de retomar duas atividades.

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