Manifesto dos movimentos urbanos que constroem a Intersindical.

“Se você for capaz de tremer de indignação perante qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, então somos companheiros.”

Ernesto Guevara, “Che”

Os Movimentos populares urbanos reunido no I Congresso da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, realizaram intenso debate com representações de vários estados da federação, momento em que foram relatadas e partilhadas várias experiências de resistências e lutas da classe trabalhadora, seja no campo ou nas cidades.

Na oportunidade, ainda foi ressaltado a importância do protagonismo da Intersindical, que traz no seu formato, frente a grave crise que permeia as organizações da classe trabalhadora, a iniciativa de dialogar com os movimentos sociais, no sentido de indicar um novo rumo para o Brasil, que possa emancipar todos os trabalhares e trabalhadoras.

Dessa forma, o presente pretende intensificar o diálogo com essa central da classe trabalhadora e demais lutadores.

No nosso sentir, a Intersindical deve ser a grande novidade no campo da luta sindical do país, tendo como princípio fundante a organização da classe trabalhadora nas suas mais variadas formas.

Bem verdade, que as mudanças no processo de produção impostas pelo grande capital impactaram profundamente o chamado “mundo do trabalho”. Já não impera o modelo fordista/taylorista que foi pano de fundo das lutas sindicais do século passado.

O operariado industrial, concentrado em grandes unidades fabris diminuiu significativamente, dando lugar ao trabalho fragmentado, disperso e precarizado. As novas formas de organização, contratação e gestão da produção atingiram inclusive o sentimento de pertencimento de classe. Segundo a OIT, entre aqueles/as que estão empregados no mundo, 45% possuem o chamado “emprego vulnerável”, desprovido das proteções sociais e em condições inadequadas, no ano de 2015.

Estas mudanças no padrão de acumulação de capital veem reforçar o caráter historicamente excludente do sistema social brasileiro. O Brasil, como país subdesenvolvido e dependente do   capital internacional, traz desde sempre a chaga da exclusão da  grande parte da classe trabalhadora, que sempre ficou a margem, mesmo nos momentos de expansão industrial. E mesmo aquela parte da classe que era incorporada recebe salários muito inferiores à necessária qualidade de vida do mundo contemporâneo e gravados na Constituição Federal de 1988.

Necessário lembrar ainda, que outra causa importante desse processo de marginalização da classe trabalhadora é a estrutura arcaica da propriedade da terra no Brasil que expulsou os trabalhadores camponeses para a cidade, sem que a cidade oferecesse oportunidades de trabalho formais, fruto da opção dos vários governos pelo agronegócio predador e mantendo, assim, cativa a força de trabalho negra mesmo após a abolição formal.

Obviamente que essa característica estrutural se vê aprofundada pelas mudanças do mundo trabalho recentes e se expressa numa gigantesca massa de trabalhadoras e trabalhadores marginalizados ou cujos salários são insuficientes para uma vida urbana digna.

As formas de trabalho da maioria classe trabalhadora urbana brasileira não são captadas pela estrutura sindical. São as/os biscateiras/os, flanelinhas, ambulantes, domésticas, prostitutas, feirantes, “donas de casa”, motoboys, cuidadoras, cujo trabalho é tipicamente urbano, isto é, só existe na cidade e em alguns casos como o de ambulantes a luta pelo trabalho se confunde pela luta à cidade.

De outra sorte, ainda existem situações de extrema precarização cuja alta rotatividade é importante serem abraçadas por esta organização sindical como as costureiras, telemarketing, entre outras.

Esta situação se expressa explosivamente nas cidades, onde a mercantilização da vida é mais avançada, ou seja, onde todos os meios de subsistência tendem a ser acessados somente pelo meio da troca. Com uma renda extremamente baixa a classe trabalhadora é incapaz de acessar todos os direitos urbanos e se defronta com uma série de formas de espoliação para além da jornada de trabalho: tempo de deslocamento, moradia precária, não acesso à saúde, educação e demais direitos sociais.

Vergonhosamente, o Brasil ainda figura  como explorador de mão de obra de escrava, isso nos leva a uma reflexão profunda do quanto se faz necessário nos unirmos nessa grande luta pela emancipação da classe trabalhadora.

Assim, como movimentos sociais reafirmamos nosso compromisso para juntos com a intersindical e demais lutadores do país para ir às ruas para a defesa intransigente do estado democrático de direito e construirmos uma democracia de alta intensidade.

São Paulo, 20 de março de 2016

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