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Durante o 1º Congresso da Intersindical, Guilherme Boulos defende ir às ruas no dia 24 por democracia e saídas à esquerda

Em uma exposição exclusiva, realizada no último sábado (19), durante o 1º Congresso da Intersindical Central da Classe Trabalhadora, o líder do MTST, Guilherme Boulos, faz uma análise da atual conjuntura política e econômica do país, explica o esgotamento do modelo traçado pelo PT de composição com a burguesia e expõe os desafios e saídas para a esquerda brasileira neste momento tão singular da história.

“A direita não quis mais compor com a Dilma porque viu uma oportunidade, a oportunidade de fazer um projeto puro sangue”, analisa. Boulos alerta para os riscos de uma escalada perigosa, fascista, propagada pela mídia e pelo juiz Sergio Moro: “O antipetismo continua sendo ferozmente de direita e nos afeta a todos, da esquerda”.

Que análise pode ser feita da conjuntura hoje?

No Brasil, a crise de que tanto se fala se torna cada vez mais econômica e social. Revela o esgotamento do modelo que o PT estabeleceu a partir de 2002, um modelo de conciliação com a burguesia. Isso funcionou por um período e seu “sucesso” se deve à conjuntura internacional, de crescimento da economia chinesa e valorização das commodities.

Houve um pacto silencioso entre esquerda e direita durante o governo do PT?

A burguesia brasileira ganhou como nunca durante o governo Lula, do PT. Recorde de lucros dos bancos, do agronegócio, da mineração, da construção civil e dos principais setores da economia. E por um lado também houve dinheiro para os programas sociais, Bolsa Família, ProUni, FIES, aumento do salário mínimo, crédito para os trabalhadores. Havia uma ideia de que todos poderiam ganhar e isso foi feito com o manejo orçamentário porque havia crescimento econômico. Esse foi o segredo do lulismo.

Só que essa equação é frágil, depende do crescimento econômico. Vimos isso depois de 2008. Quando veio a crise do capitalismo mundial, pegou os EUA, a Europa,  e pegou as commodities, há um estouro desse pacto de conciliação construído pelo PT. Inicia-se uma encruzilhada. Empurram o problema para mais cinco anos e que estoura em 2014. Como o crescimento foi menor, era necessário cortar de algum lugar. E a concordância neoliberal é o ajuste fiscal em cima do povo.

Como explicar a polarização?

A polarização que se colocou em 2014 era essa: o Aécio Neves dizia que ia cortar o Estado, mexer nos direitos sociais e a Dilma dizia: ‘nem que a vaca tussa’. Mal acabou a eleição e a vaca ficou com pneumonia. Ficamos numa situação que para a esquerda parecia simples; o governo nos traiu e vamos nos opor a ele.  E Dilma compõe um ministério de horrores:  Kátia Abreu a expoente da bancada ruralista no Ministério da Agricultura, o representante da Confederação Nacional da Indústria Armando Monteiro,  o Gilberto Kassab no Ministério das Cidades… Dilma tenta compor governabilidade com a direita, mas não percebe que a direita não quer mais recompor com ela. Parece aquele namorado que insiste no namoro e continua mandando flores.

Como se explica a direita não querer mais compor com Dilma já que ela faz um governo de direita?

A direita não quis mais compor com ela porque viu uma oportunidade, a oportunidade de fazer um projeto puro sangue. É uma situação atípica porque temos um governo de direita sofrendo o cerco da direita. Esse é o enredo. A direita não gosta do PT pelo muito que ele fez e sim pelo pouco que ele fez. Se esse tão pouco gerou tanto ódio, o que seria a reação da direita no processo que nós defendemos? O governo Dilma parece que não entendeu que a direita não quer mais e estamos num momento perigoso porque o governo está propondo e concordando com retrocessos como o pré-sal, a lei antiterror, oferecendo presentinhos para compor o governo.

E essa radicalização da direita conservadora?

Curiosamente a direita também radicalizou em dois flancos: acelerando o processo de impeachment e através da Operação Lava-Lato. Há setores de esquerda que parecem flertar com a Lava-Jato. Não deve existir nenhuma dúvida de que se tem que investigar a corrupção. Não é dúvida, é um pressuposto. O que não podemos aceitar é a condução de uma investigação seletiva, articulada com a mídia, com vazamentos em tempos oportunos, e que passam por cima das garantias democráticas. Fazer isso hoje, prisão coercitiva do Lula… Alguém tem alguma dúvida do que vão fazer contra nós? Os movimentos sociais?

Estão estabelecendo uma jurisprudência perigosa. O Estado brasileiro mata a juventude negra e pobre na periferia, sabemos que esta seletividade existe e sempre existiu no país. Só que agora esta seletividade está sendo aplaudida pela sociedade.

O que vem depois?

Há uma escalada extremamente preocupante no país: não cabe a nenhum de nós defender o governo Dilma, mas fazer a defesa da presidência. Cabe a nós refletir o que está acontecendo sob os nossos olhos. Na Av.Paulista tivemos um rapaz de bicicleta vermelha com cabelo rastafári que teve a bicicleta confiscada e apanhou de um grupo fascista. Há uma escalada perigosa, fascista, propagada pela mídia e pelo juiz Sergio Moro.

Esse clima empodera o lado de lá e afeta o nosso direito de lutar. Não temos dúvida quanto ao risco imposto neste momento e a necessidade de frearmos essa ofensiva. O antipetismo continua sendo ferozmente de direita e nos afeta a todos.

Quais os desafios e saídas para a esquerda brasileira neste momento?

Vejo três eixos fundamentais. O primeiro: deter essa ofensiva antidemocrática, não só pelo que ela defende, mas porque traz um caldo anticultura, fascista, que não aceita opinião divergente. Se isso prospera, vamos pagar um preço duro. 

Segundo: barrar as ofensivas do governo, não podemos baixar nossas bandeiras. Temos que ser claros. Não flertamos com a direita, não vamos dar abraço de afogado no PT nem no governo Dilma.

Terceiro: potencializar as lutas sociais para a reconstrução do novo ciclo da esquerda brasileira. É o segundo ano seguido de recessão, o pior desde a década de 30 e se continuar no ano que vem será o pior da história do Brasil. Isso já gerou e dá sinais de convulsão social. E não será a dos  “coxinhas de Copacabana”, será da periferia pobre, sem emprego, sem comida no prato. Não temos medo de enfrentar a direita e nem de se vincular com uma estratégia purista.

Nós entendemos que temos que construir a luta, sem titubear, em relação ao governo, à esquerda, construindo alternativas na prática. O erro que não podemos cometer é ficarmos parados sem posicionamento e linha clara.

Quais mobilizações estão programadas?

Estamos discutindo fazer já na semana que vem, dia 24, um grande ato que tenha clareza em relação à defesa dos direitos e das liberdades democráticas e apontar saídas para a esquerda, ante do ato do dia 30 por conta dessa urgência social.

Há milhares de pessoas preocupadas com essa onda fascista que pesa sobre nós. Não vamos nos omitir nesse momento histórico, vamos apontar que o caminho não é o PT, vamos apontar a saída pela esquerda, combater privilégios, a condução de um novo campo que possa  disputar o futuro e efetivamente um projeto de esquerda para o Brasil.

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